O artigo da designer Deborah Christo mestre em Design pela PUC-RJ, para o Colóquio de Moda direcionado para doutores e mestres fala sobre a relação entre a Moda e o Design, a integração entre estes dois campos. O título contém a pergunta " Designer de moda ou Estilismo?", hoje em dia a palavra design tem um significado muito amplo, tradicionalmente tinha apenas a elaboraração de um projeto e a preocupação com a funcionalidade dos objetos sem se prender a valores estéticos. Por que ligarmos o designer de moda ao campo do design e o estilista ao campo da arte?
A arte, propriamente dita, não tem compromisso algum com o mercado, seu compromisso sempre foi com a obra em si e não com algum tipo de especulação financeira; se existem obras que foram e ainda são feitas por encomenda, há algo nelas que resiste a este fim, que a distingue dos outros objetos sem valor artístico. No entanto, lamentavelmente, o valor estético dos objetos de arte é, hoje em dia, transposto por seu valor de mercado, um dos problemas da arte hoje é que uma obra se torna relevante pela mídia que recebe e pela sua cotação no mercado, e apenas por isso.Vê-se que essa postura dominante de mercado, que desprivilegia o valor artístico da obra, dificulta a compreensão, a crítica, e a discussão em torno daquilo que conferiria à obra de arte a sua “artisticidade”. Mas em quê consiste esse aspecto diferencial da arte?
Nos critérios muitas vezes rígidos que norteiam a crítica classificatória da arte a estamparia sempre esteve marginal e quase sempre banida como elemento central de expressão, quando muito aceita como coadjuvante. No entanto desde os murais e ourivesaria egípcias até os mosaicos e afrescos romanos, a padronagem em rapport sempre esteve presente como importante veículo gráfico. Durante a Idade Média, a estampa é considerada exotismo oriental, impregnada de paganismo, e portanto condenada pela Igreja. Na arte asiática, porém, estão presentes os motivos de estamparia, desde a estatuária e arquitetura hindus, nos belíssimos padrões dos kimonos das gravuras japonesas e na rica azulejaria islâmica. Com o início da Renascença o ocidente redescobre cores e estampas, mas é a tapeçaria e o bordado que texturam e vestem a obra renascentista.O assunto é extenso e permeia todos os movimentos e intenções das artes seculares, mas a estamparia propriamente dita tem seu lugar de destaque na arte ocidental nos dois últimos séculos, em especial com alguns artistas do pós-impressionismo europeu.
Um dos principais artistas oitocentistas a trabalhar a estampa foi o pintor impressionista inglês William Morris(1834-1896). Morris intitulava seu trabalho de “arte utilitária”, devido ao seu interesse pela arquitetura doméstica, como mobiliário, tapeçarias e papéis de parede, mas no entanto seus padrões florais de clara influência medieval, mesmo assim extremamente originais e independentes, foram o estopim inspirador do Art Noveau. Mas é na geração de pintores do pós-impressionismo que a estampa ganha status de sujeito na obra: com a influência de Morris, o inglês Aubrey Beardsley (1872-1898) integrante de um grupo que se intitulava “Os Nabis” (Profeta em hebraico) recobre trechos de seus quadros com belíssimos padrões como as curvilíneas estampas de “Salomé” (1892) . E é a “Salomé” de Beardsley que nos leva ao maior de todos os artistas da estampa: o austríaco Gustav Klimt (1862-1918).
Em “O Beijo”, Klimt usa a padronagem na identidade masculina e feminina. Suas volutas bizantinas,xadrezes e circulares orgânicas tomam conta de todo o espaço, ao mesmo tempo destacando e aprisionando o humano. Toda essa paixão pelo “pattern” levou Klimt a desenhar motivos para os tecidos usados pela sua companheira, a modista Emilie Flöge, em sua boutique de alta costura que atendia as ricas burguesas de Viena. Klimt faz parte de um grupo que a crítica incompreensivelmente chama de “artistas da decoração”, como Gauguin, Van Gogh , Delacroix, Ingres e Matisse.
Jean August Dominique Ingres (1780-1867), pintor que altera todo o espaço de ambientes em prol da luz e da textura, representava bordados e tapetes com a mesma importância que rostos e corpos femininos. Também em Eugene Delacroix (1798-1863) os ornamentos e estampas das vestes e tapeçarias são tratados com especial interesse. Mas como Klimt a estampa terá apenas outro pintor como seu artista: Henry Matisse (1869-1954), decano dos fundadores da pintura do séculos XX e um dos “Fauves” de 1905, era outro apaixonado pela figura recortada, a estampa. Desde o início suas obras trazem elementos gráficos passíveis de rapport, culminando nos estênceis e recortes (“seu desenhar com tesoura”, como dizia) das fases finais. Em Matisse tudo é cor e estampa, como em “ Odalisca com calça vermelha” (1921), uma mulher flutuando em padronagens. Há em seus quadros uma estória da figura, e segundo ele “ a estampa possui, além das qualidades gráficas, um ritmo cromático”. Seus dois estênceis sobre linho, “Oceania Mar“ e Oceania Céu”, de 1946 são verdadeiras aulas de desenho de estampa. Ele gostava de dizer que dar prazer era a finalidade dos seus trabalhos.
Portanto, retomando nossa questão inicial a respeito da possibilidade de conferir o estatuto de arte às estampas, concluímos que, se o que atribui valor artístico a um objeto se fundamenta na relação que este conserva com as intensidades sensíveis, e não no suporte pelo qual ele se estende, ou os interesses especulativos que se sustentam em torno deste, as estampas podem sim, ser consideradas verdadeiras obras de arte, de cujas imagens proferidas pelo tecido mantém uma estreita relação com a Vida, revelando sua vibração e indeterminação originais.
A moda e o design se aproximaram, não houve apenas a inserção da palavra design no campo de moda, mas sim o conceito, inclusive a estrutura curricular dos cursos de moda foram alterados, assim como o design passou a utilizar ferramentas que antes eram apenas exploradas no campo da moda, como por exemplo o lançamento de coleções por estações do ano.
Uma estratégia criada pelos designers para aumentar o consumo dos objetos foi fazer com que eles rapidamente mudassem de forma e estilo, uma preocupação maior com a estética do que propriamente com a função do objeto, e para isso buscaram inspiração no mundo da moda. O que consequentemente diminui o ciclo de vida dos produtos, sempre surgindo um novo objeto de desejo, tornando o antigo obsoleto.Antigamente o designer se preocupava mais com as características objetivas dos produtos, enquanto os estilistas cuidavam da parte criativa podendo criar peças únicas. Com a produção em série, que veio com a revolução industrial, ficou clara a importância do projeto de um produto. O mérito passou a ser maior para o criador do projeto e não tanto para quem produziu. E na moda não é diferente; uma vez esclarecido que o que separava a arte da indústria já não tem mais a força conceitual de antes, “estilista” e “designer de moda” podem ser considerados termos diferentes para definir a mesma profissão.